*José Serra
Museu do Futebol era uma idéia que já existia no ar. Pouco depois de que assumi a prefeitura de São Paulo decidi materializá-lo, sem a ambição do exclusivismo, até porque não imaginava um museu composto fundamentalmente de relíquias. Pensava em algo que expressasse a memória do nosso futebol, suas
performances, seus craques, suas conquistas e até sofrimentos. Que, para isso, utilizasse o que há de mais novo e criativo em matéria de tecnologia. Que emocionasse e entusiasmasse o público. Que mostrasse a evolução desse nosso esporte maior no contexto da história de nosso país. Um esporte que começou na elite, de forma socialmente segregada, e chegou às massas, como o próprio Brasil, que ao longo do período transformou-se numa sociedade de massas para ninguém botar defeitos, com suas virtudes e problemas.
Inicialmente, procurei ganhar para a idéia e aprender com os formadores de opinião do esporte, e com suas principais entidades. Visitando e revisitando o Museu da Língua Portuguesa, não tive dúvida: conquistar a Fundação Roberto Marinho como Organização Social parceira, o que não foi difícil, até porque as relações de amizade com o José Roberto e o Hugo Barreto facilitaram a aproximação e as explorações iniciais. Foi uma escolha perfeita. Quero dizer aqui que o resultado, em matéria de criatividade e bom gosto, ultrapassou minhas expectativas. A Fundação fez valer seu profissionalismo, sensibilidade para temas novos – como já tinha demonstrado no caso do MLP – e enorme talento para reunir grandes talentos, começando pelo Leonel Kaz, autor de um livro sensacional sobre a história do nosso futebol. O Alberto Helena e o PVC tinham sugerido o Pacaembu como local, sugestão que levianamente descartei no início. Mas como sempre acaba
acontecendo comigo, as idéias que rejeito ficam arquivadas em minha mente para reexames, e inclui o Pacaembéu dentro das possibilidades. A peregrinação por outros lugares e a descoberta de 7 mil metros quadrados disponíveis embaixo das arquibancadas firmaram a decisão de fazer o Museu aqui.E o apoio e o endosso indispensável da CBF ao projeto foi dado por Ricardo Teixeira desde o seu lançamento.
Para mim, o Pacaembú e o futebol se confundem. Bem criança eu vinha com meu pai nos domingos à tarde, assistir os jogos do Palmeiras. Era da inocência: enquanto jogavam os aspirantes os craques da partida principal ficavam assistindo, sentados no alto das arquibancadas, e eu em volta, babando com o Lula (atenção, ponta direita do Palmeiras), o Turcão, o Lima, o Canhotinho o Jair Rosa Pinto… Pois o Museu estará embaixo exatamente de onde ficavam os jogadores. Aliás, fiz a sugestão de ligar o Museu ao campo
através de uma parece de vidro transparente, que permitirá aos seus freqüentadores olhar o campo e até partidas sendo disputadas.
Disse que o Museu ultrapassou nossas expectativas. E vou invocar como testemunhas o Hugo Barreto e o Caio Carvalho para me defender de minha fama, injusta, de detalhista ou centralizador. Tirando uma ou outra coisa, como a sugestão de homenagear fortemente o maior locutor esportivo pré televisão, o Pedro Luiz, dei poucos palpites. Quando fui para o Governo do Estado, a Prefeitura, pelas mão do Walter , do Caio,e do Clóvis continuou tocando o projeto como prioritário, continuei a arrecadar recursos e a alocar, então, também financiamento do Estado. E o Estado vai gerir o Museu, trazendo para si todas as responsabilidades do seu custeio futuro.
Mas deixem-me, agora, sublinhar dez pontos que, penso, contribuem para fixar o significado deste Museu.
COPA DE 2014
A realização do Museu do Futebol constitui um fato novo, de inegável caráter internacional, pelo padrão que dá ao esporte, não apenas pelo seu conteúdo como pelo uso de tecnologia de ponta. Constitui assim, um significativo acréscimo de qualificação para a demanda brasileira de sediar a Copa de 2104, já que traz o futebol para uma contemporaneidade ainda não vista em museus do gênero.
2. NOVAS FORMAS DE AÇÃO EDUCATIVA
O Museu demonstra, aos olhos do Brasil, o avanço de São Paulo em promover uma educação pública de qualidade não apenas na escola, mas nas suas extensões, com a criação de verdadeiros “museus-escola” que ampliam a capacidade de compreensão e aproveitamento escolar do aluno.
3. INSERÇÃO POLÍTICA NACIONAL
Não se trata apenas de criar um museu dedicado ao esporte de um país, mas sim de valorizar o próprio país por meio de uma de suas expressões mais significativas: o futebol. O Museu do Futebol serve de exemplo para a tese de devolver ao brasileiro o sentimento de pertencimento a uma origem comum, a um desejo de
construção de um ideal de país. “Nós somos uma invenção de nós mesmos”, disse, certa feita, o poeta Ferreira Gullar. Ou seja, nós somos parte do imaginário daquilo que imaginamos que somos. O Museu do Futebol não é apenas fisicamente palpável; ele constitui a ampliação de sentidos e sentimentos comuns que constituem a base da nacionalidade.
4. A ACESSIBILIDADE: um exemplo para o mundo
Trata-se do primeiro museu brasileiro e, sem sombra de dúvida, único no mundo, a ter um programa — de ponta a ponta – voltado à pessoa portadora de problemas especiais. Um exemplo: ao cego será possível ver, por meio do toque, a jogada de Ronaldinho Gaúcho, exposta na Sala dos Anjos Barrocos, inteiramente de pernas para o ar. Ele irá tocar o corpo do jogador, reproduzido em relevo numa placa de gesso…
5. UM MUSEU DE TODOS
O Museu será visitado por torcedores e não torcedores, já que ele não é excludente. Ao contrário. Ele é um museu aberto às famílias, avôs e netos. Ele está na origem daquilo que ele quer valorizar como mais caro no homem: a palavra. Daí ser o futebol o campo da palavra. Todas as imagens nele existentes fazem parte de nossa herança comum e devem ser passadas de geração a geração pela força expressiva da tradição oral, daquilo que pais contam a seus filhos, avôs a seus netos, a partir das imagens que acordam a memória (são 1500 fotos e seis horas de imagens em movimento). O Museu comemora este congraçamento. Ele une.
6. O MUSEU: UM PONTO DE ATRAÇÃO INTERNACIONAL
O Museu dá a São Paulo uma atratividade internacional sem precedentes, única, para seu turista que vem do exterior, ao mesmo tempo em que atiça a atenção do visitante de outros Estados, na medida em que se constitui de modelo de museu de ponta, de última geração, ou como dito pelos que já lá foram: “um museu de pernas pro ar”, “um museu do outro mundo”, “um museu futurista”…
7. RECUPERAÇÃO E REVITALIZAÇÃO DE UM PATRIMÔNIO DOS PAULISTANOS
Ao recuperar o velho estádio e o seu entorno da praça Charles Miller, o Museu devolve ao cidadão de São Paulo um espaço pouco frequentado e de forte beleza natural: a encosta adjacente dos morrotes dos bairros de Perdizes e Pacaembu. Trata-se de uma nova perspectiva que se abre ao olhar de quem vive na própria cidade e pouco a frequenta nesse lugar. Ou seja, cria uma nova área de lazer e abrigo para o coração do paulistano.
8. O MUSEU DIGNIFICA O FUTEBOL
Ao dar ao futebol o mesmo status das outras formas de manifestação cultural — a arte, a música, a literatura — o Museu entroniza o futebol dentro de um aspecto, até então, não exposto de forma tão explícito aos olhos do próprio torcedor. Dignificando o esporte, ele contribuirá, sem dúvida, a elevar a qualificação do próprio torcedor, que se sentirá honrado com o Museu que, por extensão, qualifica algo de caráter aparentemente tão popular e, paradoxalmente, tão “cultivado”. Ou seja, se eleva o status social e cultural do próprio torcedor de futebol.
9. O MUSEU DEMONSTRA A IMPORTÂNCIA DA AÇÃO DO PODER PÚBLICO
Ao idealizarmos o Museu do Futebol e transformar idéias em ação e ação em realidade, o governo e a prefeitura de São Paulo assumem o papel mais comezinho – e que, muitas vezes, nos esquecemos – de que cumpre ao Poder Público realizar ações que elevem à cultura. Ou seja, a exemplo dos anos 30 e 40, ser o Poder Público fomentador de bases culturais – como o foram, na época, a criação do Instituto Nacional do Livro ou do Instituto do Patrimônio Histórico – e não ficar a reboque das iniciativas individuais ou de caráter mais imediatista.
O Museu do Futebol veio para ficar e modificar o próprio significado da instituição “museu”.
10. SEM A AMBIÇÃO DO EXCLUSIVISMO
Quando disse antes que não tínhamos a ambição do exclusivismo, quis dizer: o “acervo” deste museu é sobretudo sua criatividade, não são suas peças. Por isso, certamente haverá outro semelhante e melhor no Rio de Janeiro, e em outros estados, que acrescentarão inovações, contribuições originais. Em 2014, os estrangeiros que vierem assistir o jogo inicial da Copa, visitarão o Museu do Esporte de São Paulo. Os que forem à final, visitarão o Museu do Esporte do Rio de Janeiro.
*José Serra é governador e idealizador do Museu do Futebol



um tema tão óbvio para a pátria das chuteiras – a ideia já existia no ar como muito bem disse o Serra – que, talvez por isso mesmo, nunca se pensou em materializa-la…