Há uma bola na bandeira do Brasil. Essa imagem poderia nos levar à analogia que louva o futebol como algo típico do brasileiro, parente próximo do carnaval ou do jogo do bicho. Não é bem assim. Nosso futebol não foi uma dádiva, mas uma conquista. Uma das raras “guerras” internas em que o povo entrou e venceu. Venceu e se apropriou de algo implementado pelas elites que pretendiam fazer do futebol um traço da “raça” brasileira sadia, “embranquecida”. O país negro e mestiço não podia existir dentro das quatro linhas do campo, apregoavam os introdutores do esporte entre nós, na década seguinte à Abolição e à República. Porém, se antes era apenas testemunhado à distância pela população mais pobre, reunida lá no alto dos morros cariocas e nas várzeas paulistas, o futebol transformou-se num apaixonado triunfo de todos. Um raro pertencimento coletivo a que se entregam os brasileiros.
Ocorre que, se nossas escolas não cultuam os valores de origem, os valores de nossa formação étnica, nem incentivam o orgulho de nossa mestiçagem, quem o faz? Quem conhece sua herança cultural, que não a de branco europeu? Quem se assume como mameluco, cafuzo, mulato, índio? Difícil, portanto, estabelecer vínculos de solidariedade e coesão que nos levem a estruturar um país que, de fato, pertença a todos.
Sobra-nos a identificação geral proposta pelo futebol, porque esta é uma história comum. O futebol, esse país que existe em nós, não nos foi dado, mas expropriado.
Pois o futebol para aqui veio bem no finalzinho do século XIX, bem próximo ao alvorecer que o século seguinte traria das explosões inventivas. O ritmo da vida deixava a previsibilidade de lado. Tudo passava a ser fruto do inesperado, os atos passavam a ser menos controlados pela regularidade da vida cotidiana e mais pelos imprevistos, pela urgência, pelo movimento incessante, pelo ritmo percussivo das máquinas e ruídos das cidades.
O futebol era um esporte adequado para um mundo que estava sendo posto de pernas para o ar. Um mundo em que os trabalhadores passavam a ter alguma voz ativa, apesar de o Brasil continuar a impedir o acesso de pobres e negros a qualquer tipo de privilégio cultural, aí incluída a prática do futebol. Estes eram proibidos até de torcer pelos clubes, todos grã-finos. O país dos capitães hereditários, dos patriarcas da cana-de-açúcar, era o mesmo dos barões do café que impuseram à princesa Isabel a Abolição – ainda que tardia – da escravatura. O ato não estava imbuído de espírito libertário, mas dos interesses das oligarquias dominantes: a de não mais sustentar escravos, em vista da imigração européia que chegava com mão-de-obra qualificada e até mais barata. Os negros eram atirados às ruas. Quanto aos mestiços, eram considerados seres “desqualificados” para construir o futuro de qualquer país, ainda mais um Brasil que se olhava no espelho da Europa! No Museu do Futebol vai se narrar essa história que começa com Charles Miller, no final do século XIX, e vai até os primórdios da profissionalização do futebol e da aceitação de atletas negros, a partir dos anos de 1920. A saga do nosso futebol é exaltada como uma das raras conquistas do povo brasileiro, em que a nossa fusão étnica deu sentido, jeito de ser e modulação de gesto à história do futebol no Brasil.
O Museu do Futebol que se inaugura em São Paulo é uma realização do governo do estado, da prefeitura de São Paulo e da Fundação Roberto Marinho, com apoio do Ministério da Cultura e de empresas patrocinadoras. Visitá-lo será também visitar a História do Brasil no século XX. Além dos eixos de experiências lúdicas que fazem o visitante interagir com a emoção e a diversão, o museu é composto de uma grande espinha dorsal. É o eixo da história. Uma história de heróis, como Friedenreich, Domingos da Guia e Leônidas, Pelé e Garrincha, todos tão significativos e expressivos da cultura brasileira quanto um Portinari, um Villa-Lobos, um Mário de Andrade, um Niemeyer. Pois, se nos anos de 1930 e 1940 criamos esses heróis que tanto nos dizem respeito nos campos da arte, da literatura, do teatro, da música, da arquitetura, por que os do futebol não deveriam também ser entronizados nesse panteão cívico?
Além de toda a riqueza documental, que está sendo exibida em mais de 1.500 fotografias em grande formato e dezenas de filmes, o museu se abriga também dentro de um patrimônio histórico. Não é mero acaso sua localização no Estádio do Pacaembu. Inaugurado por Getúlio Vargas, em 1940, foi orgulhosamente saudado como o maior e mais moderno da América Latina. Refletia todo o espírito de uma época: os anseios de grandeza e uma inabalável fé no destino da nação. Foi marco de um Brasil monumental, que tomava consciência de si próprio e se projetava com euforia no futuro. Nele os torcedores veriam, abismados, o gol de bicicleta de Leônidas; nele veriam surgir, nos anos 50, Pelé, o Rei do Futebol, que desfilaria sua magia por esse gramado por mais de 20 anos. E nele descobririam a paixão pelo futebol brasileiro.
Nada mais natural, portanto, do que sediar o Museu do Futebol no coração do Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho – o Pacaembu – próximo da vibração das arquibancadas, numa das artérias mais pulsantes do futebol brasileiro e da vida cotidiana da cidade de São Paulo. Ali, por entre colunas e fundações – como um sítio arqueológico em busca da alma profunda do Brasil – o museu vai contar a epopéia do país que se uniu em torno de uma bola.
O visitante terá a oportunidade de responder às indagações que sempre se fez sobre esta nossa paixão tão coletiva. Por que o futebol nos diz tanto respeito? Por que ele está tão dentro da alma de cada brasileiro? Ao percorrer o Museu do Futebol – apropriando-se da frase de Mário de Andrade – o visitante vai virar “brasileiro sem querer”.
Leonel Kaz, curador e diretor executivo do Museu do Futebol.
Publicado em O Globo Caderno Opinião, p. 7, terça-feira, 23 de setembro de 2008.



foi o gol do rei pelé de chapeuzinho
Gostaria de deixar registrado o meu parabéns.O museu do futebol é um presente para SP.
Está no sangue…
sergio lazzari
foi o Gol do pet na vitoria do flamengo em cima do vasco na final do estadual…..que gol de falta…inesquecivel….
parabens Leonel & equipe pelo magnifico trabalho!
Foram dois! O de Basílio em 1977 por motivos óbvios e o de Ricardinhona semifinal do Rio- São Paulo contra o Santos, tanto pela jogada do Gil, que deixou o zagueiro do Santos literalmente sentado, quanto pela dramaticidade do gol.
O primórdios da sociedade Brasil futebol clube, a bola girando no futebol, percorrendo a história de uma sociedade. A exposição que entra líder e se torna campeã.
Gostaria de Parabenizar o Gov. José Serra, que é uma cidadão sensivel à cultura, pelo que tem feito por São Paulo e que fará pelo nosso País como o futuro Presidente nosso, obrigado Serra, pois estou passando por São Paulo e como eu os que passarem por aqui não pode deixar de ver essa maravilha de Museu mais uma vez obrigado.
sou historiador, estive no museu do futebol e achei sensacional a forma como foram apresentadas as varias fases e os vários momentos vivenciados em nossa história do brasil futebol, brasil político, brasil social, brasil artístico, brasil esporte, brasil coração…
A abordagem de forma multipla e especial, usando uma tecnológia de categoria inigualável e de estrutura marcante.
Para quem já visitou ficam lembranças revividas ou mesmo vividas de forma inquestionável e especial.
A aqueles que ainda não estiveram alí, digo que perdem por não prestigiar tal experiência.
Emfim, agradeço os momentos vivenciados em tal visitação, estão todos de parabéns e merecem serem prestigiados.
Conheci o museu e recomendo para todos amante e não amantes de futebol…
incrivel aquela sala dos gritos de torcida…
é de arrepiarrrrrrrrr…